Irrigação

5 Benefícios da Irrigação na Cultura da Soja

Irrigação da cultura da soja: entenda como a irrigação nas lavouras de soja pode trazer benefícios e diminuir riscos

Dada a importância econômica da soja no Brasil, a demanda hídrica da cultura, e a distribuição irregular de chuvas em algumas áreas do país nas últimas safras, a irrigação pode ser uma alternativa viável para a garantia e até aumento de produção desta cultura.

De acordo com o Atlas Irrigação 2021, as lavouras de soja quando irrigadas, possuem um potencial de produtividade de 2 a 3 vezes superior se comparadas ao cultivo em sequeiro (sem irrigação).

Assim, o conhecimento sobre as necessidades hídricas da cultura nos diferentes estádios de desenvolvimento e o acompanhamento das previsões sobre as condições climáticas da próxima safra, são indispensáveis para bons resultados produtivos.

No entanto, não basta apenas irrigar. É preciso realizar a irrigação em quantidade e época adequadas.

Confira a seguir os benefícios da irrigação nas lavouras de soja.

A demanda hídrica da soja ao longo de seu ciclo

A soja pode ser cultivada desde meados de setembro até o final de fevereiro, com algumas variações em relação às diferentes regiões produtoras do país.

No entanto, de forma geral, a cultura possui fases de maior e menor sensibilidade ao déficit hídrico, independente da região produtora.

De acordo com dados climáticos sobre as safras anteriores, é cada vez mais frequente a ocorrência de déficit hídricos nos períodos mais críticos da cultura: os estádios reprodutivos

Além disso, há uma estimativa de que, a cada 20 safras, nove, podem registrar redução da produtividade pela menor disponibilidade de água.

Por isso é muito importante conhecer a demanda hídrica da soja ao longo de seu ciclo.

A necessidade total de água para a cultura é de 450 a 800 mm/ciclo, dependendo da região e da cultivar.

Semeadura até a emergência

Neste período, as sementes precisam de uma quantidade de água suficiente para o processo germinativo e reativação do seu metabolismo. Para que, assim, uma plântula possa emergir do solo. 

Dessa forma, as sementes de soja precisam de quase 50% do seu peso em água, para que o processo germinativo tenha início, sendo indispensável também a disponibilidade de oxigênio e temperaturas mínimas de 10 ºC a 13ºC e máxima de 42ºC.

A importância da água se dá principalmente após a fase II da germinação. Pois, a partir deste momento, a semente se torna intolerante à dessecação ou déficit hídrico.

Irrigação na cultura da soja: como a falta de água pode afetar a germinação. Esquema ilustrativo da curva de embebição de sementes, eventos relacionados a cada uma das três fases e níveis de tolerância à dessecação, de modo que o déficit hídrico, após a Fase II pode comprometer o estande e a população final de plantas da lavoura, impactando diretamente na redução da produtividade. 
Esquema ilustrativo da curva de embebição de sementes, eventos relacionados a cada uma das três fases e níveis de tolerância à dessecação, de modo que o déficit hídrico, após a Fase II pode comprometer o estande e a população final de plantas da lavoura, impactando diretamente na redução da produtividade (Fonte: Peske; Filho & Barros, 2006)

Desenvolvimento vegetativo

Tem início quando os cotilédones estão acima do solo e termina quando ocorre a emissão do último nó da haste principal.

Neste período, apesar do déficit hídrico impactar na estatura (altura das plantas) e no índice de área foliar, não compromete a produtividade da cultura; desde que esta tenha condições de compensar ou se recuperar posteriormente.

A demanda diária de água neste período pode chegar a 6 mm e está relacionada ao desenvolvimento da área foliar da cultura.

Logo, quanto maior a área foliar, maior a demanda hídrica, até atingir a demanda máxima no período de enchimento de grãos.

Além disso, este é o período em que a cultura tem maior capacidade de se recuperar de estresses.

Florescimento até a formação do legume

O período de maior demanda hídrica da cultura da soja corresponde a floração e enchimentos de grãos, com necessidade de 7 a 8 mm diários.

Isso porque, o déficit hídrico durante o período reprodutivo pode ocasionar o abortamento de flores, a queda de frutos (redução do número de vagens) e vagens chochas ou vazias, impactando diretamente na produtividade. Vale destacar que as perdas neste momento podem chegar a 47% da produção.

Os impactos no enchimento de grãos ocorrem, principalmente, devido ao fechamento estomático, provocando enrolamento das folhas, a diminuição da fotossíntese e da produção de biomassa.

Por isso, é importante planejar a semeadura para que o período de maior demanda hídrica não coincida com condições climáticas desfavoráveis. 

Além disso, o abortamento de legumes devido ao déficit hídrico pode provocar retenção de folhas na soja durante a maturação.

Isto porque, há um desbalanço entre fonte (folhas) e drenos (legumes aos quais os fotoassimilados seriam translocados para o enchimento destes), o que retarda a senescência da cultura, enquanto os grãos estão prontos para a colheita.

Enchimento de grãos

Assim como na floração, esta fase demanda grandes quantidades diárias de água, principalmente por ser um período de rápido acúmulo de matéria seca e nutrientes nos grãos.

O déficit hídrico neste período pode encurtá-lo, prejudicando o enchimento dos grãos, reduzindo o seu peso e, por consequência, a produtividade da lavoura. Além de impactar na qualidade dos grãos colhidos.

Benefícios do uso da irrigação na cultura da soja

Tendo em vista as necessidades hídricas da cultura da soja, uma alternativa aos desafios impostos pelo clima é o uso da irrigação.

A seguir, conheça 5 benefícios do uso da irrigação na cultura da soja.

1. Possibilidade de realizar mais safras em um mesmo ano agrícola

Um mesmo pivô pode realizar até três safras no mesmo ano agrícola, incluindo as culturas da soja, seguida de milho e feijão, por exemplo. 

É possível, ainda, realizar a safra e posteriormente a safrinha, uma vez que não haverá restrição hídrica para a lavoura.

Assim, é possível cultivar diferentes culturas de forma simultânea em áreas próximas ou na mesma área, utilizando do mesmo pivô para irrigação.

2. Melhor rendimento em anos e regiões com histórico de déficit hídrico

O incremento de produtividades depende do ano, da região e do manejo adotado nas áreas.

Além disso, a produção também varia de acordo com o déficit hídrico, sua intensidade e época de ocorrência.

Assim, de acordo com pesquisas, as respostas das cultivares à irrigação são variáveis, mas podem ser de 2 a 3 vezes maiores, comparados aos cultivos não irrigados.

3. Retorno rápido do investimento em comparação à vida útil da estrutura

Mesmo em propriedades pequenas, o uso de irrigação se torna uma alternativa viável, que colabora na obtenção de melhores rendimentos. 

Além disso, a irrigação pode ajudar no melhor aproveitamento da área, uma vez que suplementação da água permite um maior número de cultivos.

Assim, o retorno do investimento, em propriedades pequenas, pode acontecer em até cinco anos, dependendo das culturas e número de cultivos por safra agrícola. Esse retorno é considerado rápido em comparação ao incremento produtivo potencial que pode ser obtido pela suplementação da água.

Na região do Cerrado, por exemplo, a irrigação na fase crítica (período reprodutivo) pode apresentar entre 11,7 a 14,6 kg de incremento por mm irrigado. Um ganho e tanto!

4. Melhor absorção de nutrientes e fixação de nitrogênio pela cultura

A falta de água pode interferir na capacidade das raízes da soja de absorver nutrientes. Por isso, a disponibilidade adequada de água torna o aproveitamento dos nutrientes disponíveis mais eficiente.

Além disso, o déficit hídrico também interfere no sucesso da associação das bactérias fixadoras de nitrogênio às raízes, o que afeta na capacidade de fixação de nitrogênio e na disponibilidade deste nutriente tão importante para a cultura.

5. A irrigação em sulco alternado pode minimizar os efeitos da camada compactada do solo na produtividade da soja

Em solos compactados, uma prática recomendada para minimizar os efeitos negativos da compactação à cultura da soja é o uso da irrigação suplementar, especialmente em épocas de déficit hídrico.

Sabe-se que a compactação diminui a porosidade (espaço entre as partículas do solo), de modo que estas são movidas muito próximas umas às outras, interferindo no movimento da água e a capacidade de infiltração para camadas mais profundas.

Desta forma, a irrigação por sulco alternado, em solos compactados ou com características que favorecem o estresse hídrico (tipo de solo), pode auxiliar a cultura da soja, fornecendo água sem que o solo fique saturado e, por consequência, encharcado, justamente pela água não infiltrar adequadamente.

Além disso, neste sistema de irrigação em sulco alternado, é possível economizar água e aumentar a eficiência de seu uso, realizando a aplicação da irrigação principalmente nas épocas críticas da cultura, que são a germinação e, posteriormente, o período reprodutivo.

A irrigação por sulcos é realizada a partir da aplicação da água através dos sulcos localizados ao lado das linhas de plantio, durante o tempo necessário para que a água infiltre e umedeça o solo. 

De acordo com pesquisas, esta técnica já aumentou a produtividade da cultura da soja em até 26 sacas por hectare no Sul do Brasil.

Além disso, um dos indicadores para o acionamento da irrigação nestas situações é se a umidade do solo estiver abaixo de 60% da capacidade de campo.

Considerações sobre o uso da irrigação na soja

É importante que o sistema de irrigação seja dimensionado de forma adequada, para que possa suprir as necessidades não só da soja, mas das demais culturas cultivadas em outras épocas.

Desta forma é importante se atentar aos seguintes fatores:

  1. Dimensionado correto do sistema de irrigação;
  2. Lâmina de água aplicada e período de irrigação adequado;
  3. Busque alternativas de manejo que auxiliam na eficiência do uso da água como a época de semeadura.

A época de semeadura da cultura, a depender da região de cultivo, pode interferir nas respostas da cultura à irrigação.

O atraso da semeadura, por exemplo, do dia 10 de outubro para o dia 10 de novembro, pode ter reflexos em ganhos de produtividade. Isto porque há menores probabilidades de déficit hídrico no período de implantação da cultura, aumentando a eficiência do uso da água. 

Por outro lado, quando há disponibilidade de irrigação para a cultura, a semeadura antecipada pode colaborar para maiores ganhos por permitir o cultivo da safrinha, por exemplo.

Conclusão

A água é indispensável para a manutenção da vida e está relacionada à capacidade de absorção de nutrientes e translocação destes via sistema vascular das plantas, por isto, deve ser fornecida em quantidade suficiente.

A cultura da soja é exigente em água principalmente em dois períodos principais, de modo que o déficit hídrico pode comprometer significativamente a produtividade da cultura.

Dado o cenário das últimas safras, não só para a cultura da soja,  o fornecimento de água via irrigação complementar, de forma racional, é uma alternativa economicamente viável e que pode incrementar a produtividade da soja, em ambos os cultivos, safra e safrinha, apresentando inúmeros benefícios.


Leia mais em “O uso da água na cultura da soja” (clicando aqui)

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Bruna Rohrig

Engenheira Agrônoma (UFFS), Mestra em Fitossanidade (UFPel), com área de concentração fitopatologia. Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Fitotecnia (UFRGS) na área de sanidade vegetal e pós-colheita. Tem experiência nas áreas de fitopatologia, controle de doenças de plantas, grandes culturas, pós-colheita de grãos e sementes e agricultura de precisão.

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