Irrigação

Verdades e mitos sobre a água na agricultura

A crise hídrica brasileira levantou questões sobre gestão da água em todos os setores. A agricultura foi apontada como um dos pivôs do problema por utilizar cerca de 70% da água consumida. O engenheiro-agrônomo Luís Henrique Bassoi diz que a questão não é tão simples. Segundo ele, o setor agrícola, além de não ficar com essa fatia toda, tem a capacidade de promover a geração de maior volume de água.
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Formado pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), Bassoi possui mestrado em Irrigação e Drenagem pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Botucatu; doutorado em Energia Nuclear na Agricultura (USP) e pós-doutorado em Irrigação e Drenagem pela University of California, Davis, Estados Unidos.
Atualmente é pesquisador da Embrapa Semiárido, em Petrolina (PE), e docente dos programas de pós-graduação em Agronomia da Faculdade de Ciências Agronômicas (FCA) da Unesp Botucatu e em Engenharia Agrícola, da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), campus de Juazeiro (BA).
Bassoi coordena o portfólio Agricultura Irrigada da Embrapa, instância que reúne todos os projetos de pesquisa, desenvolvimento e transferência de tecnologia da Empresa ligados ao tema e delineia estratégias voltadas a contornar os desafios relacionados à agricultura irrigada.

A agricultura tem sido apontada como vilã da crise hídrica por utilizar 70% da água disponível. Esse percentual corresponde à realidade?

Bassoi – Trata-se de uma média estimada em dados mundiais e corresponde a diferentes situações de uso da água na agricultura. Ela não vai, necessariamente, corresponder à média nacional e há variações entre uma região e outra. No entanto, ainda precisamos de estudos específicos para ter um número para o Brasil. Os 70% são uma média com a qual trabalhamos hoje.

Por que o setor consome tanta água?

Bassoi – O termo “consumir” não é muito adequado nesse contexto, em minha opinião, pois dá uma conotação de que a agricultura e a pecuária retiram água das fontes deixando-a indisponível, o que não é de todo verdade. O que ocorre é que apenas uma pequena parte dessa água torna-se “indisponível” para o retorno à natureza. É aquela que vai ser utilizada pela planta ou animal para a “fabricação” dos produtos agrícolas, como o grão de arroz, milho e feijão, o leite, a carne, por exemplo. A maior porção da água usada no campo permanece no ciclo hidrológico, como aprendemos na escola. Parte da água penetra no solo recarregando o lençol freático, outra parte da água é devolvida para a atmosfera pela evaporação da água na superfície do solo e pela transpiração das plantas, e ainda outra parte da água escoa para as fontes de água. Perceba que isso é muito diferente de se retirar a água do mesmo rio para uma produção industrial ou uso urbano, quando alguns efluentes terão de ser tratados para voltar ao meio ambiente. Por isso, prefiro dizer que o setor agropecuário consome energia elétrica e fertilizantes, mas utiliza a água para produzir.

“A maior porção da água usada no campo permanece no ciclo hidrológico”

Qual é a importância da irrigação?

Bassoi – Primeiro, é preciso dizer que em determinadas regiões é impossível produzir sem irrigação, como no Semiárido. Não é possível haver no Semiárido uma agricultura comercial geradora de emprego, renda e desenvolvimento sem irrigação. No geral, a produção de uma área irrigada pode ser até três vezes maior que a não irrigada, dependendo da cultura e do local de cultivo.
Portanto, a irrigação está diretamente ligada à quantidade de alimentos, fibras e bioenergia que queremos produzir. É preciso adotar medidas conservacionistas que aumentem a disponibilidade de água e ajudar a agricultura a usar bem a água, em vez de fechar as torneiras do campo, como tem se apregoado ultimamente.

” […] a irrigação está diretamente ligada à quantidade de alimentos, fibras e bioenergia que queremos produzir”

Quais as consequências de se fechar as torneiras do campo?

Bassoi – Todo produtor utiliza água, seja pequeno, médio ou grande. E o agronegócio abrange todos os grupos. Pequenos produtores que comercializam sua produção também fazem parte do agronegócio e serão os primeiros a sofrer se não puderem usar a água. Diante disso, podemos perceber que sem água não haverá produção, renda nem emprego para quem trabalha no campo e não haverá agroenergia, fibras e, especialmente, comida para quem mora nas cidades. Pense na produção de hortaliças, por exemplo, que são culturas que dependem de irrigação diária. Sem água, esses produtos serão os primeiros a desaparecer e a encarecer.
O impacto na economia nacional seria igualmente terrível por causa do peso que o agronegócio tem no produto interno bruto (PIB) brasileiro. Ressalto, novamente, que não estamos falando somente de grandes produtores: pequenos proprietários rurais, responsáveis majoritariamente por culturas importantes, como algumas hortaliças, frutas e o nosso precioso feijão, também sofrerão se cortarem a água do campo.

Qual é a responsabilidade do setor agrícola no surgimento da crise hídrica?

Bassoi – A crise hídrica é o resultado de dois fatores. O primeiro é a ocorrência de chuva abaixo dos valores esperados nos últimos anos. Desde 2010, de acordo com dados de institutos ligados à meteorologia, são registrados no País índices pluviométricos abaixo da média histórica em várias partes do Brasil. Houve ainda um agravamento entre o fim de 2014 e início de 2015, quando ocorreu um bloqueio atmosférico, como relatado no Observatório da Safra 2014-2015. O outro fator é a falta de prevenção. Simplesmente não houve um planejamento para enfrentar esse problema mesmo com os índices de chuva em declínio.

Como será possível resolver essa questão?

Bassoi – Para começar, precisamos da conscientização de toda a sociedade de que é preciso usar melhor a água. É importante, por exemplo, usar o racionamento de maneira preventiva em vez de recorrer a ele como o último recurso. Devemos racionar enquanto temos, depois que a água acabar não haverá o que racionar. Essas medidas, quando tomadas preventivamente, são menos onerosas e menos traumáticas.

O Brasil irriga muito?

Bassoi – O Brasil irriga pouco. Isso acontece porque em algumas regiões ainda é necessária infraestrutura de distribuição da água e de energia elétrica. Além disso, também faltam capacitação e transferência de tecnologia para se fazer irrigação. Hoje, o País tem quase seis milhões de hectares irrigados, mas temos potencial para chegar perto de 30 milhões de hectares, ou seja, a área poderia ser cinco vezes maior. Uma expansão como essa também resultaria na expansão da produção e da produtividade agropecuária e no consequente aumento da oferta de fibras, bioenergia e alimentos, seja para consumo humano e animal, seja para processamento e industrialização. É preciso lembrar que o Brasil tem um papel importante de fornecedor de alimentos não somente para o mercado doméstico, mas também para o mundo todo.
O País é um dos principais atores no fornecimento de alimentos e de matérias-primas da agropecuária para o mundo. A irrigação ajudará a aumentar essa oferta. Está na hora de fazermos a pergunta: qual será o custo de não irrigar? O maior ônus será abrir mão da vocação agrícola do País. Temos terras e energia solar em abundância e disponibilidade de água, mas é preciso racionalizar o uso dos recursos naturais e investir em eficiência. Sem água, não há agricultura. A Política Nacional de Irrigação (Lei 12.787/13) deve auxiliar o aumento planejado da área irrigada, o aumento da produtividade agrícola, e incentivar a formação e capacitação de recursos humanos para a prática da irrigação de modo racional, eficiente. Toda a sociedade pode ganhar com isso.

“Hoje, o País tem quase seis milhões de hectares irrigados, mas temos potencial para chegar perto de 30 milhões de hectares, ou seja, a área poderia ser cinco vezes maior.”

Mesmo com um regime de chuvas reduzido seria possível ter água para irrigar?

Bassoi – Mesmo com a redução da oferta de água é possível obter uma boa produtividade. As perdas em tempos de escassez hídrica são inevitáveis. Para grande parte do País, há previsão de poucas chuvas no primeiro semestre deste ano, por isso é possível que haja quebra de safra. No entanto, com planejamento e adoção de tecnologias que promovam o uso eficiente da água, é possível reduzir as perdas. Por exemplo, a aplicação criteriosa de água levando-se em consideração fatores como o tipo de cultura, quantidade de água presente no solo, evapotranspiração da cultura, entre outros.
A agricultura de precisão, que vem ganhando mais adeptos no Brasil, também pode auxiliar o manejo de irrigação, que nada mais é do que a utilização de critérios para definir a quantidade e o momento de irrigar. A agricultura de precisão leva em consideração as variações do solo e da planta na área agrícola. Assim, em algumas partes dessa área pode-se aplicar uma menor ou maior quantidade de água, em vez de aplicar a mesma quantidade na área toda. Isso auxilia a economizar água e aumenta a eficiência de uso da água.

“[…] com planejamento e adoção de tecnologias que promovam o uso eficiente da água, é possível reduzir as perdas”

O produtor está capacitado para irrigar?

Bassoi – Encontramos muitos produtores capacitados. Ainda assim, temos consciência de que esse número precisa aumentar. Há uma grande demanda por capacitação em irrigação no Brasil. A irrigação localizada (gotejamento e microaspersão), por exemplo, tem aumentado principalmente nas popularmente chamadas fruteiras, mas ainda há muito que expandir. O gotejamento subterrâneo tem sido usado com bons resultados em plantações de cana-de-açúcar e café, por exemplo.
O pivô central permite a irrigação de grandes áreas, com eficiência, o que é essencial para as culturas que necessitam de produção em grande escala, como as culturas de grãos, para serem rentáveis. São boas notícias a respeito da irrigação, que precisam ser divulgadas.

Como as fazendas podem colaborar com o suprimento de água do campo e das cidades?

Bassoi – As propriedades rurais podem ser produtoras de água. Basicamente, produzir água é adotar práticas conservacionistas que aumentem a quantidade de água que se infiltra no solo. Em termos simples, isso é feito mantendo o máximo possível de água na propriedade sem deixar que ela escoe para fora da propriedade. Desse modo, a água acaba se infiltrando no solo recarregando o lençol freático que abastece um córrego, um reservatório, um rio, ou seja, qualquer fonte de água do local. Essas medidas são conhecidas: uso de terraços e de barraginhas, manutenção de vegetação no topo de morros, ao redor de nascentes, na beira do rio (mata ciliar), etc. Essas medidas também minimizam a erosão.
A crise hídrica mostrou também a importância da reservação, que é a “poupança” de água, por meio de um reservatório. Até agora isso era visto como uma prática com maior importância em regiões em que há pouca chuva, como o Semiárido. Estamos vivenciando que mesmo as regiões que possuem regime regular de chuva também necessitam ter uma reserva de água. No campo, podem ser construídos reservatórios para que a água possa ser usada por uma ou mais propriedades agrícolas, principalmente durante períodos de escassez. Isso pode diminuir a retirada de água de fontes de água que também são utilizadas para abastecimento urbano ou industrial. Mas é importante ressaltar que todos os setores usuários devem usar a água de modo racional. É uma responsabilidade coletiva, de toda a sociedade civil, e não somente da agricultura.

Se a reservação é tão importante, por que não se investe mais em reservatórios no Brasil?

Bassoi – Esse é um tema importante que precisa ser melhor debatido. Há uma ideia equivocada a respeito dos reservatórios, pois muita gente considera que a reservação pode provocar escassez de água para aqueles que estão abaixo do reservatório, ou seja, a jusante. Isso precisa ser melhor explicado aos produtores e usuários de outros setores. Com gestão integrada e planejamento, é possível construir reservatórios sem implicar escassez de água para outros usuários. Isso exige a realização de estudos que determinem os locais apropriados para se fazer os reservatórios, quantidade de água a ser retida, vazão a ser liberada, suas finalidades, entre outros fatores.

 Há exemplos internacionais de gestão hídrica?

Bassoi – O estado norte-americano da Califórnia convive há muito tempo com a baixa disponibilidade hídrica, alta população e praticamente toda a sua agricultura é irrigada. Uma ampla rede de reservatórios e canais garante o abastecimento de água para todos os setores usuários. A população tem acesso diário às informações em telejornais locais ou regionais, ou em sites, sobre o nível dos reservatórios para que saibam como está a situação. A população californiana é conscientizada pelas autoridades sobre a necessidade de uso racional da água em todos os setores.
Outros bons exemplos são Espanha, Austrália e Israel. Mais uma vez reforço: a chave para o sucesso quanto a isso são planejamento e gestão integrada dos recursos hídricos. – O que seria a gestão integrada dos recursos hídricos? Bassoi – Vou usar uma situação comum como ilustração. Se a água de um rio ou reservatório é utilizada para geração de energia, abastecimento urbano e irrigação, deve haver um acordo comum relacionado a quanto e quando cada setor necessita de água, bem como é preciso se estabelecer os limites de uso para cada um, e em casos de crise, determinar os setores que terão prioridade de uso. Também existe a questão do manejo sustentável dos recursos hídricos, que é basicamente a necessidade de manutenção da quantidade e da boa qualidade da água. A Lei 9.433/97, a chamada Lei das Águas, aborda isso.
Reportagem publicada no portal Embrapa 
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Thiago Fantim

Sou especialista em marketing digital, área que atuo há vários anos. Já tive a oportunidade de trabalhar em diversos setores que compõem essa área: agência de marketing digital, loja virtual varejista e plataformas SaaS.

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