Segurança do Alimento x Segurança Alimentar

Entenda a diferença entre ‘segurança alimentar’ e ‘segurança do alimento’, qual o papel do agro em cada uma e o que ‘segurança do alimento’ tem a ver com rastreabilidade

A alimentação é um direito básico de todo cidadão. Porém, o termo ‘Segurança Alimentar’  só começou a ser usado depois da Primeira Guerra Mundial, quando se tornou claro que a soberania de um país dependia da sua capacidade de produção de alimentos.

Nesse contexto, a sociedade começou a perceber que, mais do que a oferta, também é fundamental que a população tenha o acesso aos alimentos para que haja, de fato, Segurança Alimentar.

Em paralelo, há outro termo muito importante que é a ‘Segurança do Alimento’, muitas vezes confundido com a ‘Segurança Alimentar’.

A agricultura tem um papel fundamental em ambos. Mas, qual a diferença entre esses termos? Entenda melhor neste artigo!

O que é Segurança Alimentar?

A Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) diz respeito ao direito que todas as pessoas possuem de ter acesso a alimentos de qualidade e em quantidade suficiente, de forma regular e permanente.

Além disso, esse termo se fundamenta em práticas alimentares que sejam social, econômica e ambientalmente sustentáveis. E que também promovem saúde e respeitam a diversidade cultural.

Objetivos de desenvolvimento sustentável (ODS)

Infelizmente, de acordo com um relatório divulgado neste ano pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), a fome no mundo começou a aumentar em 2010, disparando em 2020.

Diante da importância do tema, ações relacionadas à ‘Segurança Alimentar’ estão entre os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (17 ODS) da ONU.

Estes objetivos representam um plano de ação global para eliminar a pobreza extrema e a fome, oferecer educação de qualidade, proteger o planeta e promover a paz até 2030.

Assim, a ODS2, focado em ‘Fome Zero e Agricultura Sustentável’, tem por objetivo:

  • Acabar com a fome;
  • Alcançar a segurança alimentar, ou seja, disponibilidade de alimento em quantidade e qualidade;
  • E promover uma agricultura mais sustentável.

Diante disso, o papel da agricultura na erradicação da fome está muito claro. Assim, o agro brasileiro, por exemplo, tem um grande potencial de contribuir na redução da fome tanto dentro do Brasil, quanto fora.

O que é Segurança do Alimento?

Outro conceito muito importante é o de ‘Segurança do alimento’ e que muitas vezes é confundido com a ‘Segurança Alimentar’.

A ‘Segurança do Alimento’ se refere à inocuidade dos alimentos, ou seja, a ausência de contaminantes, sejam eles biológicos, químicos ou físicos, que poderiam afetar a saúde do consumidor.

Sendo assim, é considerado seguro um alimento ausente ou em concentrações abaixo do limite de risco de contaminantes ou constituintes que possam causar qualquer tipo de perigo à saúde humana.

Assegurar que um alimento é seguro exige um esforço coletivo. Isso porque, os alimentos, sejam frutas, hortaliças ou outros vegetais, podem percorrer um longo caminho até chegar ao prato do consumidor.

Um dos procedimentos que vem colaborando para minimizar as contaminações é a implementação do sistema de “Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle” (APPCC). Sendo “perigo” qualquer contaminante que possa causar danos à saúde do consumidor.

Assim, em qualquer etapa da produção, colheita ou pós-colheita de um produto vegetal, pode haver a entrada de um perigo.

Desta forma, essa análise tem por objetivo a garantia, efetividade e eficácia do controle dos perigos à produção de alimentos.

Contudo, é possível evitar essas entradas através de medidas de higiene dos: produtos, pessoas que os manipulam, equipamentos e das instalações.

Além disso, é preciso haver também um manejo adequado no uso de defensivos.

Diante disso, o papel do produtor neste processo é extremamente importante e envolve:

  • O uso de defensivos registrados para a sua cultura;
  • A aplicação nos momentos mais adequados;
  • E colheita respeitando o período de carência dos defensivos.

Vale destacar que, a ‘carência‘ é o período necessário entre a última aplicação do defensivo até a colheita, para que o consumo do alimento seja seguro.

Neste contexto, a rastreabilidade surge como uma ferramenta de transparência e garantia da segurança do alimento.

Qual é o papel da rastreabilidade na segurança do alimento?

A rastreabilidade significa poder acompanhar toda a trajetória de um alimento, ou seja, poder segui-lo desde o campo até chegar ao consumidor final. 

Além disso, a rastreabilidade é uma exigência legal para produtos vegetais frescos e o seu principal objetivo é o monitoramento e controle de resíduos de agrotóxicos nestes produtos destinados à alimentação humana.

segurança do alimento e segurança alimentar: entenda a relação entre a rastreabilidade e a segurança do alimento
Caminhos da rastreabilidade (Ilustração da CNA Brasil

Mas, para além de exigências, a rastreabilidade também traz benefícios a toda cadeia, pois permite:

  • Melhorar a administração da cadeia produtiva;
  • Agir de forma mais rápida para detectar contaminações e recolher lotes em caso de incidentes;

Além disso, ela já é exigida por lei desde 2018 para vegetais frescos destinados à alimentação humana.

E um dos componentes principais da rastreabilidade é o Caderno de Campo. Isso porque, nele são feitos diversos registros de informações como:

  • A identificação do produtor, sua propriedade e o responsável técnico; 
  • Quais são as espécies cultivadas e as cultivares usadas; 
  • As adubação e correções de solo realizadas; 
  • O manejo de irrigação; 
  • As aplicação de defensivos;
  • A realização das atividades como semeadura, podas, colheita e outros tratos culturais realizados na lavoura.

Além disso, também são feitos registros das justificativas e objetivos que levam o produtor a realizar um determinado tratamento fitossanitário ou adubação. 

Dessa forma, o produtor mantém as informações sobre como solucionar problemas ou falhas recorrentes.

O caderno de campo pode ser digital ou físico. O mais importante é que deve ser constantemente atualizado e mantido na propriedade por, pelo menos, 18 meses.

O consumidor mais exigente quer garantias de um produto de qualidade e sustentável

Outro fator que deve se somar a isso e pesar cada vez mais em favor da segurança dos alimentos é o crescente interesse dos consumidores por produtos que, além de qualidade, provém de uma produção sustentável, tanto ambiental, quanto social.

De acordo com um estudo realizado pelo Institute for Business Value (IBV, da IBM) em 2021, com diferentes consumidores de todo mundo, houve um aumento de 17% no número de consumidores dispostos a pagar mais pelos produtos produzidos de forma sustentável e ambientalmente responsável.

Além disso, o relatório aponta número interessantes, como:

  • 40% dos consumidores afirmaram que os fatores de impactos ambientais são mais importantes do que custo, conforto e conveniência, o que demonstra que estes consumidores estão cada vez mais exigentes com o que consomem;
  • 22% afirmaram que responsabilidade ambiental é muito ou extremamente importante no momento de decidir sobre a aquisição de produtos de uma empresa ou marca;
  • 84% dos consumidores indicaram que a sustentabilidade ambiental é moderadamente importante;

Desta forma, a segurança do alimento, a transparência na cadeia produtiva e o monitoramento ao longo da mesma, são responsabilidades de todos os agentes que fazem parte da cadeia agroalimentar.

Conclusão

Tanto a ‘Segurança Alimentar’ quanto a ‘Segurança do Alimento’ são duas preocupações dos consumidores e de toda a cadeia agroalimentar.

Em ambos, a agricultura tem um papel central, mas é preciso não confundir as duas coisas.

Isso porque, enquanto a ‘Segurança Alimentar’ diz respeito ao papel do agro em alimentar a população, a ‘Segurança do Alimento’ se preocupa com a ausência de contaminantes neste processo.

E isso é importante porque o consumidor está cada vez mais exigente com os produtos que adquire.

Desta forma, a rastreabilidade e os seus componentes, como o caderno de campo, tem uma importante função de trazer maior transparência à cadeia produtiva e, com isso, somar esforços à ‘Segurança do Alimento’.


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