El Niño 2026-27: 75% de chance do mais forte desde 1950, e o risco não é igual para café, soja e milho
Publicado por Agrosmart | Setembro 2026
O El Niño 2026-27 pode ser o mais forte desde 1950: a NOAA/CPC estima 75% de chance de um evento histórico no trimestre outubro a dezembro de 2026. Mas o risco não é o mesmo em todo o Brasil. No Sul o problema é excesso de chuva, no Centro-Oeste, Sudeste, Norte e Nordeste é falta de água, e o que decide o resultado da safra é a janela em que cada cultura está quando o sinal chega.
O que já está medido no oceano Pacífico?
A NOAA registra anomalias de temperatura da superfície do mar acima de +3,0 °C no Pacífico equatorial leste. Em agosto, os índices Niño fecharam em +1,8 °C no Niño-3.4, +2,5 °C no Niño-3 e +3,4 °C no Niño-1+2, com o Niño-4 em +0,1 °C e os índices de Oscilação Sul negativos. A temperatura subsuperficial segue bem acima da média, com termoclina mais profunda que o normal.
Do lado brasileiro, o Painel El Niño 2026-2027, boletim mensal nº 03 de agosto de 2026, elaborado em conjunto por INMET, INPE, ANA, CEMADEN, Serviço Geológico do Brasil, SEDEC e CENSIPAM, indica probabilidade de 100% de permanência do fenômeno até pelo menos o início de 2027. A previsão sazonal de CPTEC/INPE, INMET e FUNCEME para setembro, outubro e novembro de 2026 aponta:
- Chuvas acima da faixa normal na Região Sul, em parte de São Paulo e no Mato Grosso do Sul, com destaque para o Rio Grande do Sul.
- Chuvas abaixo da faixa normal nas Regiões Norte e Nordeste.
- Chuvas abaixo da faixa normal em parte do Brasil Central e do Sudeste, principalmente em Mato Grosso, Tocantins, norte de Goiás, Minas Gerais e Espírito Santo.
- Temperaturas acima da faixa normal em grande parte do Brasil.
Em episódios de La Niña o padrão tende a se inverter, e carregar a memória da última safra para dentro desta é o erro mais caro do ciclo.
Como o El Niño 2026-27 afeta soja e milho?
Segundo o Painel El Niño, no Centro-Oeste as chuvas abaixo da média em Mato Grosso, Goiás e Distrito Federal podem dificultar o estabelecimento inicial das culturas de verão e agravar a deficiência hídrica e o risco de incêndios. O tempo seco favorece as colheitas, enquanto o excesso de chuva no sul do Mato Grosso do Sul pode atrasá-las. Em novembro, a recuperação da umidade tende a beneficiar as semeaduras tardias, embora veranicos possam afetar a soja.
No Sul, as chuvas acima da média mantêm a disponibilidade hídrica alta e reduzem o risco de geadas tardias, o que favorece as culturas de inverno. O custo aparece do outro lado: excesso de umidade favorece doenças, dificulta a colheita, compromete a qualidade dos grãos e atrasa a semeadura e o estabelecimento das culturas de verão.
No Nordeste, a combinação de chuva abaixo da média com temperatura elevada pode prejudicar o milho terceira safra e reduzir a produtividade das pastagens, sobretudo em áreas de sequeiro. O tempo seco favorece a colheita do algodão, mas pode dificultar a implantação da safra 2026/2027 no Maranhão e no Piauí.
No Norte, o tempo seco favorece colheita e secagem de grãos, mas os déficits mais intensos no Amapá, norte de Roraima e nordeste do Pará podem agravar o estresse hídrico do arroz de várzea e de outras culturas em fases sensíveis.
Como o El Niño 2026-27 afeta o café?
O Painel indica que, no Sudeste, o predomínio de tempo quente e seco favorece a conclusão das colheitas, mas pode dificultar a implantação das culturas de verão no norte de São Paulo, em grande parte de Minas Gerais, no Espírito Santo e no norte do Rio de Janeiro. Em novembro, o aumento das chuvas deve melhorar a umidade do solo, com exceção de áreas do norte mineiro e do Espírito Santo.
Ou seja, as duas áreas que o boletim aponta como as que podem ficar de fora da recuperação de umidade em novembro são o Espírito Santo, maior produtor de conilon do país, e o norte de Minas. O quadro hídrico de partida reforça a atenção: em julho de 2026 a seca no Sudeste atingia 89% da Região, com 2% da área em seca grave, abrangência e intensidade maiores do que no mesmo período de 2023.
Como está a seca no Brasil antes do pico do El Niño?
Dados do mesmo boletim, com base no Monitor de Secas da ANA e no Índice Integrado de Seca:
- Nordeste: a seca moderada cobria 45% da Região em julho de 2026, contra 12% em julho de 2023, com impactos já classificados como de curto e longo prazo.
- Sudeste: 89% da Região sob seca em julho de 2026, com 2% em seca grave.
- Centro-Oeste: 30% da área sob seca, com predominância de seca fraca (23%) e 7% de seca moderada.
- Brasil: 157 municípios em Seca Severa pelo Índice Integrado de Seca em julho de 2026, contra 38 em maio.
- Risco de fogo: 514 municípios em Alerta Alto e 706 em Alerta, cobrindo cerca de 5,85 milhões de km².
Um El Niño muito forte chegando sobre solo que já perdeu umidade não soma, multiplica. A temperatura acima da média eleva a demanda evaporativa da atmosfera e acelera a perda de água do solo mesmo onde a chuva prevista está dentro da normalidade.
O que o produtor pode fazer agora?
O Ministério da Agricultura e Pecuária recebeu da Embrapa 163 medidas para gestão de riscos climáticos no campo, elaboradas no Grupo de Trabalho sobre El Niño instituído pela Portaria MAPA nº 928/2026, com participação do INMET e de cerca de 50 profissionais da Embrapa. Das 163, 14 são transversais a todo o setor, 139 são específicas por segmento produtivo e dez são ações de apoio a políticas públicas.
Entre as medidas transversais, as que dependem só da decisão do produtor e do time técnico:
- Monitorar previsões meteorológicas e usar dados meteorológicos locais, não médias regionais.
- Usar o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc) na definição de janela de plantio.
- Diversificar a produção no espaço e no tempo.
- Elaborar planos de contingência para eventos climáticos adversos.
- Registrar eventos e impactos climáticos ocorridos, para avaliar depois o que funcionou.
- Avaliar economicamente o nível de proteção adequado para cada risco e usar seguro rural e outros mecanismos de transferência.
Como resume o coordenador do Grupo de Trabalho, Bruno Leite, na nota do Mapa: o cardápio de tecnologias para enfrentar o El Niño já existe, o desafio é fazer esse conhecimento chegar ao produtor rural.
Risco não se prevê, se monitora
Nada sobre o El Niño 2026 aqui é previsão de safra ou de produtividade. Previsão sazonal trabalha com probabilidade, e o próprio boletim registra que eventos de maior intensidade nem sempre resultam em impactos mais severos. O que muda o resultado de uma safra sob El Niño não é acertar o palpite, é encurtar o intervalo entre o que acontece na área e a decisão que se toma sobre ela.
É esse o trabalho da Agrosmart: transformar dado climático e agronômico da área específica em risco mensurado por área, para que a decisão de plantio, de manejo, de crédito e de seguro seja tomada sobre medida.
Para aprofundar, leia El Niño 2026: como o risco climático atravessa toda a cadeia do agro, O que significa excesso e déficit hídrico na agricultura e Efeitos do estresse hídrico nas lavouras.
Quer entender como medir o risco climático das suas áreas nesta safra? Fale com o time da Agrosmart e veja como o monitoramento por área funciona na prática.
Perguntas frequentes sobre o El Niño 2026-27
Quando o El Niño 2026-27 deve atingir o pico?
A NOAA/CPC indica fortalecimento até o fim de 2026, com o trimestre outubro a dezembro concentrando a maior probabilidade de evento histórico. O Painel El Niño brasileiro aponta 100% de probabilidade de permanência do fenômeno até pelo menos o início de 2027.
Vai chover mais ou menos na minha região?
Depende. A previsão sazonal para setembro a novembro de 2026 indica chuva acima da normal no Sul, parte de São Paulo e Mato Grosso do Sul, e abaixo da normal no Norte, Nordeste e parte do Brasil Central e Sudeste.
El Niño forte significa quebra de safra garantida?
Não. O próprio boletim registra que eventos de maior intensidade nem sempre resultam em impactos mais severos. A previsão sazonal é probabilística, não determinística.
O que muda para o café?
A atenção está no norte de Minas e no Espírito Santo, as duas áreas que o boletim aponta como possíveis exceções à recuperação de umidade prevista para novembro.
O ZARC já resolve esse risco?
Ele resolve a entrada, indicando a janela de semeadura de menor risco. O que acontece entre a semeadura e a colheita continua exigindo monitoramento por área. Veja Risco Climático no Agro.




